sexta-feira, 4 de junho de 2010

Tigres asiáticos

Modelos para o Brasil: Tigres asiáticos?

por Sylvio Micelli — última modificação 19/05/2008 08:10 ViaPolítica


Escrever a respeito dos chamados “tigres asiáticos” é bastante complicado, pois o próprio termo é sujeito a interpretações diversas. Alguns economistas, por exemplo, acreditam que Japão, China e até a Índia poderiam ser incluídos nesta rubrica. Para outros, poderíamos falar dos tigres “clássicos”, como Hong Kong, Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura e dos neo-tigres, como Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas. Tal amplitude do termo pode dar margem a confusões, pois, se é verdade que a experiência asiática tem muitos pontos em comum, não é possível associar países em estágios de desenvolvimento diversos numa análise única.
Por João Fábio Bertonha*
Escrever a respeito dos chamados “tigres asiáticos” é bastante complicado, pois o próprio termo é sujeito a interpretações diversas. Alguns economistas, por exemplo, acreditam que Japão, China e até a Índia poderiam ser incluídos nesta rubrica. Para outros, poderíamos falar dos tigres “clássicos”, como Hong Kong, Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura e dos neo-tigres, como Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas. Tal amplitude do termo pode dar margem a confusões, pois, se é verdade que a experiência asiática tem muitos pontos em comum, não é possível associar países em estágios de desenvolvimento diversos numa análise única.

Assim, os comentários neste artigo se centrarão nos tigres “clássicos”, sendo os outros países mencionados apenas quando for conveniente em termos de comparação. Não obstante, mesmo os quatro países englobados neste termo – Hong Kong, Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura – também nãoo iguais entre si. Pelo contrário, em várias questões eles estão em campos opostos, como na questão da democracia, na intervenção estatal na economia etc. No entanto, eles têm semelhanças suficientes para que sejamos capazes de, ao menos, extrair algumas conclusões gerais da sua experiência.

E é uma experiência que merece realmente ser conhecida e analisada. Entre 1960 e 1995, estes países multiplicaram sua renda per capita por oito, enquanto os da América Latina apenas a duplicaram. Todos os índices sociais cresceram junto com o aumento da produção e das exportações e estes países estão, hoje, no rol dos desenvolvidos ou, no mínimo, chegando perto.

A receita para este crescimentoo foi nada excepcional. As lideranças desses países, ameaçadas pelo espectro do comunismo e decididas a modernizar e transformar seus países e sociedades, fizeram uma avaliação realista das suas possibilidades de crescimento. Focar na exportação de minérios ou produtos agrícolas era inviável para nações com escassa área agricultável e quase nenhum produto mineral relevante. A saída era entrar no mercado internacional de manufaturados, mas simplesmente competir livremente neste mercado era inviável, já que não havia, inicialmente, mercado consumidor interno, empresas, base tecnológica etc. Os trunfos dos tigres asiáticos eram a proteção dos Estados Unidos e o acesso fornecido por eles ao mercado internacional, a mão-de-obra barata, a máquina do Estado e uma ética de trabalho, além da vontade de modernização.

Montou-se, portanto, um modelo voltado para as exportações. Havia a certeza do mercado consumidor externo e procurou-se atrair capitais internacionais que se interessassem em utilizar a mão-de-obra barata local para criar plataformas de exportação de brinquedos, têxteis etc.

O Estado, neste contexto, interveio em peso para promover as exportações. As nascentes empresas receberam incentivos fiscais, crédito barato, subsídios, proteção cambial e outras benesses. O Estado também procurou investir na infra-estrutura e na formação de capital humano, com maciça inversão de recursos na educação superior e na ciência e tecnologia, mas, acima de tudo, na educação básica e média. Ao mesmo tempo, o Estado manteve disciplina fiscal, inflação baixa e práticas de livre mercado, como preços livres e a concorrência. O próprio foco no mercado internacional, além disso, obrigou as empresas nacionais a ser competitivas.

Com isto, podemos caracterizar a economia dos tigres asiáticos como uma combinação entre o livre mercado e um Estado desenvolvimentista. Nem uma economia liberal, que deixaria tudo nas mãos do mercado, nem uma economia centralizada. Uma economia capitalista, de livre iniciativa, mas com um projeto nacional e um direcionamento por parte do Estado, numa combinação que deu certo. A única possível exceção foi Hong Kong, mais liberal, mas que tinha, contudo, a imensa vantagem de servir de porto franco para toda a China.

Nesse ponto, vale uma comparação com o Brasil. Durante alguns anos, por exemplo, tivemos uma reserva de mercado para a informática. As empresas nacionais que surgiram à época se acomodaram e, mesmo que tivessem tentado sofisticar seus produtos e exportar, esbarrariam em dificuldades de financiamento, escassa mão-de-obra qualificada, etc. O resultado foi uma indústria de computadores tímida, acomodada e que entrou em crise logo que as barreiras alfandegárias caíram.

Já na Coréia ou em Taiwan, por exemplo, as empresas tiveram a proteção das barreiras alfandegárias, mas a clareza de que essa situaçãoo duraria para sempre e que elas logo teriam que competir no mercado mundial. O Estado, além disso, forneceu condições para a competitividade e cobrou intensamente que esta se desse. Diferença significativa, que explica porque estes dois países se tornaram potências na área tecnológica enquanto os brasileiros, durante o período da reserva de mercado, se esforçavam para contrabandear seus micros do Paraguai.

Em 1997/1998, uma severa crise atingiu os tigres asiáticos. Para os liberais, uma prova de que intervencionismo estatal não funciona e que as leis de mercado finalmente trabalhavam para colocar os asiáticos no seu devido lugar. Os liberais tinham razão quando ressaltavam que o sistema financeiro dos tigres asiáticos estava cheio de problemas e defeitos, como pouco rigor em empréstimos, uma relação quase incestuosa com as empresas, etc. Também tinham razão ao indicar que uma economia moderna demanda um sistema bancário menos concentrado, com critérios mais sérios para concessão de empréstimos etc.

No entanto, a crise nestes anos não indicou o fim do modelo asiático, mas a necessidade de reformá-lo. Afinal, mesmo com tantos defeitos, ele funcionou bem por décadas e, mesmo após 1998, a recuperação desses países foi rápida. Afinal, havia uma base produtiva de última geração abaixo das crises políticas e financeiras. Os governos asiáticos, além disso, não seguiram todo o receituário do FMI e, após um primeiro momento de crise intensa por causa da desvalorização cambial, a situação começou a melhorar.

O enfraquecimento da moeda permitiu uma rápida expansão das exportações e os governos asiáticos reduziram os juros e começaram a gastar dinheiro público para sanear o sistema financeiro e estimular a economia. A própria disciplina fiscal desses países permitiu, aliás, que eles se permitissem um momento de liberalização das finanças públicas num momento crítico. Isso apenas revela como seguir o receituário liberal ao pé da letra nem sempre produz resultado, mas como segui-lo em parte pode ser muito produtivo em alguns casos.

O futuro dos tigres asiáticos, hoje, me parece promissor. Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong superaram a fase de exportadores de produtos de uso intensivo de mão-de-obra e já estão no mundo da indústria de ponta e de alta tecnologia. Agora, eles podem se dar ao luxo de abrir um pouco seu mercado (o que é louvável, no atual estágio do seu desenvolvimento, para ampliar ainda mais a sua competitividade e melhorar o nível de vida), confiar mais no consumo interno como motor do crescimento (mas sem esquecer as exportações), enquanto suas sociedades, mais sofisticadas, começam a demandar por um sistema político menos corrupto e mais democracia.

Um ciclo, assim, se fecha. De exportadores que só tinham a mão-de-obra barata para economias e sociedades mais sofisticadas, que transferem indústrias menos competitivas e capitais para seus vizinhos pobres. Um processo que começou no Japão, seguiu para os tigres e agora segue para os neo-tigres e a China. No futuro, possivelmente, Vietnã, Birmânia e outros entrarão no processo.

O que podemos aprender da experiência dos tigres asiáticos? Em primeiro lugar, a necessidade de uma sinergia entre um Estado minimamente eficiente (o que não significa esquecer o caráter corrupto e autoritário da maioria desses países nas últimas décadas) e capaz de conduzir um projeto nacional com um setor privado forte e competitivo. Em segundo, comoo se constrói um país moderno sem ciência, tecnologia e educação, mas como estas precisam estar inseridas no sistema produtivo, sob risco de desperdício de potencial humano. Por fim, que valores como os dos asiáticos (trabalho, disciplina, visão de futuro) são fundamentais para o desenvolvimento, mas que o desenvolvimento é possível em qualquer lugar. Isso, claro, desde que as elites que tomam as decisões não se contentem com a sua riqueza e poder, mas desde tenham vontade de ver o país como um todo crescer, adotando as políticas adequadas para tanto.

Fonte: Espaço Acadêmico – n° 84/ Maio de 2008 www.espacoacademico.com.br/

Link: www.espacoacademico.com.br/084/84bertonha.htm

* João Fábio Bertonha é doutor em História, professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR e pesquisador do CNPq.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Modelos para o Brasil. China? - João Fábio Bertonha


Como último texto desta série antes da conclusão e síntese, escolhi abordar a China e tal escolha não foi ocasional. Em termos de crescimento econômico, a China é, com certeza, o país mais bem sucedido nas últimas décadas. Mesmo com a precariedade e pouca confiabilidade das estatísticas chinesas, é inegável que o país vem mantendo, há quase trinta anos, índices de crescimento do PIB invejáveis e contínuos. Não espanta que o gigante asiático seja a grande promessa econômica do século XXI, que as matérias a respeito do país em jornais, revistas, televisão e etc. se sucedam e que a experiência chinesa seja olhada com tanta atenção pelo resto do mundo.

Em última instância, na verdade, o modelo chinês não é tão inovador ou impressionante assim. As lideranças chinesas decidiram, a partir, grosso modo, da morte de Mao Tse Tung, que a China não poderia atingir uma posição de desenvolvimento econômico e/ou atingir o status de superpotência desejado sem que o país crescesse de forma acentuada, o que não estava acontecendo durante o período 1949-1979.

A decisão foi, assim, pela abertura ao capitalismo internacional, de forma que os recursos financeiros e tecnológicos do mercado mundial fossem as vitaminas que iriam dinamizar a economia chinesa. As grandes multinacionais européias, americanas e asiáticas (como do Japão, Taiwan e da diáspora chinesa) poderiam contar com a mão-de-obra barata, abundante e disciplinada da China para a fabricação de seus produtos, especialmente nas etapas em que o uso intensivo da mesma era necessário. Em retorno, teriam altas taxas de lucro e a possibilidade de reexportar os seus produtos sem dificuldades ou problemas, além de poderem desfrutar do crescente mercado consumidor chinês. Um acordo lucrativo para ambas as partes e no qual a China entrou, efetivamente, com o único elemento produtivo que ela tinha em abundância, ou seja, gente.

Os efeitos desta aposta estão mais do que claros. As grandes empresas multinacionais tiveram e têm grandes lucros no país e, ao mesmo tempo, o planeta foi inundado por produtos fabricados (ou, ao menos, finalizados) na China, com efeitos na demanda de matérias primas, na inflação mundial, etc. A China se inseriu na ordem capitalista mundial e está se beneficiando dela, ao mesmo tempo em que traz benefícios e desafios ao resto do mundo.

Ninguém pode ignorar a questão, claro, se o país ainda poderia ser chamado de comunista. Em termos de estrutura política, apesar de recentes esboços de alguma abertura, o país ainda é uma ditadura unipartidária e que se encaixaria nos moldes dos velhos países comunistas. Na economia e nos costumes, o velho e o novo convivem, mas a parte dinâmica da economia é a capitalista, do litoral, enquanto as velhas empresas estatais e o campo patinam e velhas características negativas do mundo comunista, como a burocracia e a corrupção, permanecem.

É óbvio que a elite comunista alega que apenas utiliza o capitalismo para dinamizar as forças produtivas locais, a espera da chegada do verdadeiro comunismo. Em termos marxistas, faria sentido. No entanto, parece pouco provável que um comunismo ao velho estilo seja reinstalado no país e ele adquire cada vez mais tons do capitalismo ocidental (o que inclui crescentes desigualdades sociais e consumismo), o que o deixa numa situação no mínimo ambígua.

De qualquer forma, o que é interessante em termos da discussão dessa série é como os chineses souberam se integrar no capitalismo internacional e adotar princípios do liberalismo pregado pelo Ocidente, ao mesmo tempo em que recusam categoricamente elementos deste liberalismo quando não os interessa.

Assim, os chineses garantem a livre remessa de lucros e dividendos às empresas internacionais e facilitam a exportação de produtos. A disciplina e a docilidade da mão-de-obra e a estabilidade macroeconômica também são garantidas pelo Estado, numa outra prova de que apenas Estados autoritários podem garantir que a população aceite plenamente certas características das políticas liberais.

Por outro lado, o câmbio chinês permanece controlado, apesar das imensas pressões internacionais, a propriedade intelectual só é respeitada quando se interessa e há subsídios e outros mecanismos para estimular as exportações. Do mesmo modo, apesar de muitas empresas estatais terem sido fechadas por ineficiência, o modelo chinês não indica uma privatização radical, assim como tenta manter, via subsídios e ação do Estado, um padrão de vida mínimo no campo e nas cidades. A questão aqui é, em essência, garantir um mínimo de estabilidade social, que uma privatização radical ou um total abandono do campo às leis de mercado tornaria impossível controlar, mesmo com repressão maciça.

É difícil saber exatamente, claro, a trajetória do modelo chinês nos anos a seguir, mas é razoável acreditar que seu índice de crescimento econômico continuará alto, salvo algum acontecimento inesperado, e isto por vários elementos.

Em primeiro lugar, ainda há centenas de milhões de camponeses chineses se dirigindo ou prontos a se dirigir às cidades em busca de trabalho. Com efeito, a transição para o mundo moderno (urbano e industrial) está se dando, na China, agora, e isso indica uma reserva de mão-de-obra barata aparentemente sem fim. Dessa forma, a China poderá continuar a manter sua simbiose com o mercado internacional via trabalho sem problemas ainda por muitos anos.

Outro motivo é que, aos poucos, a economia chinesa vai se descolando desse papel de supridor de trabalho barato às grandes transnacionais. Esse elemento, com certeza, continuará e será o motor do crescimento chinês ainda por muitos anos. Mas o mercado interno começa a se desenvolver à medida em que o padrão de vida cresce e uma nova classe média se forma. Empresas chinesas e internacionais começam a se movimentar para atender este mercado e grandes empresas chinesas também estão surgindo, algumas já com imenso destaque na economia internacional. A China caminha, assim, para se tornar uma economia moderna, sem depender exclusivamente do mercado externo, mas ligado fortemente a este.

Por fim, parece haver, no planejamento a longo prazo da liderança chinesa, a visão clara, ainda que cheia de improvisações e contradições, de que o modelo atual chinês tem um limite temporal claro. Eles parecem perceber que não apenas é impossível à China se manter eternamente no papel de oficina do mundo (já que, a medida em que sua mão-de-obra for se tornando mais cara, haverá transferência de indústrias para outros países, como já começa a ocorrer em alguns setores), como que isso não seria desejável, pelo que o país começa a se preparar para uma nova fase, em que a China se integrará à economia mundial também pela via do desenvolvimento científico e educacional do seu povo.

Claro que a China ainda é uma nação com um índice educacional baixo e suas universidades e centros de pesquisa ainda estão distantes das da Europa, dos Estados Unidos e do Japão. Sua infra-estrutura também é limitada na maioria das áreas. Não obstante, investimentos maciços têm sido direcionados a estas áreas (infra-estrutura, educação e ciência), no que parece ser um esforço planejado para garantir um futuro menos dependente do usufruto de mão-de-obra barata.

Os chineses, realmente, têm tentado melhorar suas escolas primárias, onde há 11 milhões de professores e uns 220 milhões de alunos. Suas universidades, com seus 20 milhões de estudantes, têm recebido créditos cada vez maiores e estimula-se o intercâmbio e a formação dos professores universitários. A produção do conhecimento ainda é vigiada, especialmente nas ciências humanas, e há imensas deficiências no relacionamento da Universidade com o mercado, na questão da qualidade do ensino, etc., mas saltos grandes têm sido feitos e há a intenção de que eles continuem.

Se este esforço dará resultado, é ponto em aberto. Se a combinação de crescimento econômico, melhora relativa das condições sociais e Estado centralizado poderá se manter e conseguirá conter as imensas tensões sociais advindas de um projeto de modernização tão amplo, também é uma questão cuja resposta só virá no devido tempo. Do mesmo modo, a China será um excelente campo de testes para verificarmos se uma sociedade moderna implica em algum tipo de democracia ou se é possível a convivência ad infinitum entre autoritarismo e economia de mercado. Enfim, mais pontos em aberto do que certezas.

No que se refere ao Brasil, fica a dúvida do quanto da experiência chinesa podemos aproveitar, ainda que a mídia brasileira tenha sido pródiga em apresentar informações sobre o “milagre chinês” e algumas pessoas acreditem que seria este o melhor caminho a seguir.

De fato, o Brasil está num estágio, em termos de modernidade, distante do chinês. Nossa população é majoritariamente urbana e com um nível educacional e de renda médio um pouco melhor, o que se reflete em aspirações e expectativas maiores. Temos leis trabalhistas e ambientais que nem sempre são adequadas e respeitadas, mas que são melhores do que as chinesas. Por fim, vivemos numa democracia (imperfeita que seja, mas democracia), o que impediria o Estado de controlar a sociedade no nível necessário para promover mudanças tão intensas e rápidas. O “modelo chinês”, no Brasil, seria retrocesso.

Realmente, para sermos uma nova China, teríamos que eliminar a maioria das nossas leis trabalhistas e ambientais, diminuir nossos salários e redes de proteção social para garantir custos baixos e usar a mão forte do Estado, provavelmente eliminando a democracia, para conter a inevitável tensão social. E mesmo assim talvez não fosse suficiente, pois não dispomos da imensa reserva de gente da China. Não parece ser o caminho adequado, portanto, para o Brasil.

Mas algumas lições talvez possam ser aprendidas. A primeira é que o capitalismo internacional e globalizado não é um demônio e que a questão principal não é aceitá-lo ou recusá-lo, mas pensar em como se integrar a ele de forma não subordinada, obtendo concessões e com ganhos de lado a lado. Ou seja, projetos nacionais de longo prazo ainda são não apenas possíveis como necessários, até para um diálogo com o mercado internacional. Em segundo lugar, nota-se que seguir a cartilha dos poderosos nem sempre é necessário e que, muitas vezes, é possível e imperativo fugir dela.

Por fim, a China indica como um desenvolvimento baseado em exploração da mão-de-obra pode ser um excelente começo para uma sociedade, mas dificilmente o fim desejado. O mesmo poderia ser dito num baseado na agricultura ou na exploração mineral. As grandes sociedades do futuro terão, se quiserem ser fortes e ricas, que atingir a modernidade industrial, mas também superá-la pela pós-modernidade do conhecimento. A China parece ter entendido isto e vale a pena não esquecer disto aqui, do outro lado do mundo.







quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Marcha olímpica da China oferece lições sobre a flexibilidade do partido

Jim Yardley
Em Pequim

Quando Pequim dava início à construção dos seus principais estádios olímpicos quatro anos atrás, o vice-presidente e principal articulador político da China, Zeng Qinghong, advertiu os 70 milhões de membros do Partido Comunista que o próprio partido poderia passar por uma certa reconstrução.

Zeng argumentou que as "lições dolorosas" aprendidas com o colapso de outros partidos comunistas na União Soviética e na Europa Oriental não poderiam ser ignoradas. Ele afirmou que os líderes chineses precisavam "acordar" e descobrir que "o status de um partido como grupo do poder não dura necessariamente tanto quanto o próprio partido".

Zeng, atualmente aposentado, referia-se às pressões da liberalização econômica, da estagnação política e da globalização, que, segundo muitos analistas, acabariam derrubando o governo de partido único na China. As Olimpíadas também representavam um ponto de pressão, e certos analistas acreditavam que as expectativas e o escrutínio internacional vinculados aos Jogos poderiam ajudar a abrir um outro sistema político autoritário - conforme aconteceu em Seul em 1988.

Mas, se as Olimpíadas apresentaram desafios e crises indubitáveis, o Partido Comunista mostrou que é flexível. O apetite público por reformas não diminuiu, mas o efeito colateral de curto prazo das Olimpíadas foi uma intensificação do patriotismo chinês que fortaleceu o partido, possibilitando que este enfrentasse as críticas internacionais após a onda de repressão contra os manifestantes tibetanos em março e a controvérsia a respeito do percurso internacional da tocha olímpica.

A mudança econômica e social é tão rápida na China que o Partido Comunista é às vezes descrito como um administrador que não dá mais conta do trabalho. Mas nos sete anos passados desde que Pequim foi escolhida para sediar os jogos, o partido adaptou-se e seguiu em frente, reduzindo a repressão contra elementos da sociedade, ainda que esmagasse ou cooptasse as ameaças ao seu controle do poder político.

O partido absorveu empresários, profissionais urbanos e estudantes universitários em uma classe de elite vinculada ao status quo político, ainda que não faça necessariamente parte dele. Capitalistas privados podem ser o símbolo de uma China em processo de mudança, mas o partido também agarrou-se firmemente aos pilares mais lucrativos da indústria e do sistema financeiro, e nem sempre é fácil fazer uma distinção entre as maiores companhias privadas e as suas congêneres estatais na economia híbrida da China.

Enfrentando a fúria popular devido à corrupção, as autoridades chinesas precisam agora participar de sessões anuais de treinamento como parte de um programa de âmbito nacional - nem sempre bem-sucedido - para a elevação da competência. E, se as autoridades abandonaram há muito tempo os esforços para o controle de pensamento no estilo maoísta, a máquina de propaganda ainda inflama paixões nacionalistas, ou as suprime, dependendo das prioridades do partido.

"Esse é um partido que reflete bastante", afirma David Shambaugh, cientista político da Universidade George Washington e autor do livro "China's Communist Party: Atrophy and Adaptation" ("O Partido Comunista da China: Atrofia e Adaptação"). "Os seus membros têm grande capacidade de adaptação, pensam muito e são abertos, dentro de certos limites. Mas a questão fundamental é a sobrevivência. E eles vêem a sobrevivência como resultado da adaptação".

A questão suprema é saber se a adaptação sozinha é suficiente. Muitos analistas afirmam que a ausência de uma reforma democrática está prejudicando a eficiência econômica da China e que as reformas são necessárias para o enfrentamento de questões como a enorme desigualdade e a degradação ambiental. Milhares de protestos irrompem todos os anos devido aos confiscos ilegais de terras e à corrupção oficial. A crise do Tibete revelou que o nacionalismo chinês é uma grande força política, ainda que ele tenha exposto questões domésticas não resolvidas relativas à liberdade de religião e aos direitos das minorias. Para alguns analistas, a truculenta resposta oficial à questão do Tibete revelou uma liderança insegura e na defensiva.

"O partido não tem auto-confiança em relação à sua legitimidade", afirma Zhang Xianyang, um analista político liberal de Pequim. "Desta forma, o governo exibe uma reação exagerada face à turbulência social. Creio que o regime não é tão forte quanto pensam os estrangeiros e os cidadãos comuns. Mas ele também não é tão fraco quanto acha".

Negócios do partido
Para o Partido Comunista, a escolha da China, em julho de 2001, para sediar as Olimpíadas de 2008 foi um golpe político e histórico: um presente que eles poderiam fornecer aos cidadãos entusiasmados e um novo ponto focal, sete anos no futuro, que poderia ser utilizado para estimular o orgulho nacional.

Dentro do partido, os líderes concentraram-se atentamente na viabilidade do sistema. O partido não enfrentava nenhuma oposição organizada; até porque nenhuma oposição é permitida. Mas a liderança, nervosa com as tendências históricas, ordenou que fossem realizadas autópsias completas do colapso dos governos da União Soviética e da Europa Oriental. Em junho de 2001, um mês antes do anúncio das Olimpíadas, o departamento de organização do Comitê Central do Partido Comunista, que supervisiona as promoções e treinamentos no partido, publicou um relatório contundente que revelou a profunda raiva popular e recomendou "reformas do sistema" a fim de enfrentar os problemas da corrupção e da incompetência.

A economia da China disparava, e o país preparava-se para ingressar na Organização Mundial de Comércio. Mas se era verdade que o livre comércio poderia alavancar as exportações da China, o relatório do partido advertiu também que uma integração mais profunda na economia mundial poderia "implicar em perigos e pressões crescente, e é possível prever que no período seguinte o número de protestos públicos aumentará, prejudicando seriamente a estabilidade social".

O desmantelamento da economia planificada já representara um desafio ideológico: o que fazer quanto a uma classe emergente de capitalistas que estava acumulando riqueza rapidamente? Para os marxistas da velha guarda, aceitar os capitalistas seria uma apostasia, mas para um partido que temia qualquer grupo emergente como um rival na disputa pelo poder, isso pareceu ser uma política inteligente. Menos de duas semanas antes do anúncio das Olimpíadas, Jiang Zemin, que na época era o presidente, escolheu o 80º aniversário do partido para declarar que os capitalistas deveriam ser convidados a ingressar nas suas fileiras.

Os reformistas esperavam que os empresários privados pudessem um dia revelar-se uma força para a democratização. Mas, atualmente, juntamente com o fluxo de autoridades do partido para o setor empresarial, a mistura de dinheiro e poder fez com que as distinções nítidas entre os setores estatal e privado tornassem-se menos significantes do que no Ocidente. O empresariado estabeleceu vínculos mais estreitos com o governo e o partido no intuito de obter acesso aos empréstimos dos bancos estatais e tirar proveito da rede de burocratas que controlam os contratos imobiliários e governamentais. Estudantes universitários de olho em uma carreira no governo ou na academia muitas vezes fazem o mesmo cálculo.

"O partido parece estar contente com isso", afirma Bruce Dickson, acadêmico especializado na China, professor da Universidade George Washington e autor do novo livro "Wealth Into Power: The Communist Party's Embrace of China's Private Sector" ("Transformação de Riqueza em Poder: A Adoção do Setor Privado da China pelo Partido Comunista"). "Eles não estão em busca de ideólogos inflexíveis. O que querem é cooptar as pessoas para que elas façam parte do seu sistema. E eles têm tido muito mais sucesso do que as pessoas acreditam".

Além de gerenciar a ascensão da iniciativa privada, o partido também enfrentou o colapso de grande parte da economia estatal.

A fatia estatal da economia caiu de 80% em 1997 para cerca de 35% em 2006, de acordo com uma recente análise publicada no periódico "China Economic Quarterly". Mas a redução dessa fatia não reflete um declínio de influência. As análises do colapso do bloco soviético, feitas pelo partido, culpam os países pós-comunistas por terem se apressado de forma descuidada a adotar a privatização. A fim de preservar a proeminência do partido, as autoridades graduadas adotaram uma política de venda de pequenas empresas com baixas margens de lucro, mantendo, porém, o controle sobre as maiores indústrias.

Atualmente o Estado ainda exerce controle efetivo sobre recursos naturais como petróleo, gás e carvão, refinação de petróleo, produção de aço e metais ferrosos, telecomunicações, transporte, geração de energia elétrica e o sistema financeiro.

Arthur Kroeber, editor do "China Economic Quarterly", afirma que as autoridades chinesas injetaram competição no setor estatal ao lançar uma entidade estatal contra outra, sem abrir mão do controle sobre as indústrias estratégicas.

"Eles retiveram todas as indústrias maiores e que apresentam um grande fluxo de capital", diz Kroeber.

Agente da mudança
Se existe algo que tem sido um agente da mudança na sociedade chinesa, este fator chama-se Internet. Em 2001, a China tinha 26,5 milhões de usuários da Internet. Atualmente este número é de 253 milhões, o maior do mundo. Um desses usuários é um engenheiro de software chamado Lu Yunfei, que juntou-se à multidão aglomerada na Praça da Paz Celestial na noite em que Pequim ganhou o direito de sediar as Olimpíadas.

No ano seguinte, Lu começou a surfar na Web e logo deparou-se com as notícias sobre a visita feita pelo primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, a um templo que homenageia os soldados japoneses, incluindo alguns acusados de cometer atrocidades na China. Furioso, ele tornou-se um dos membros da legião de ciber-nacionalistas do país.

"Fiz uma virada de 180 graus na minha vida devido à Internet, como resultado da liberdade de informação", diz Lu, que atualmente tem 33 anos. "O movimento patriota é um resultado do desenvolvimento da Internet".

A liberdade de informação sempre foi considerada essencial para a liberalização da China, e a Internet disseminou quantidades de informação que anteriormente eram impensáveis. Apesar de um firewall da Internet e de dezenas de milhares de censores, os dissidentes ainda publicam petições que antigamente não seriam lidas. Os agricultores publicam vídeos de manifestações no YouTube. Mas o nacionalismo também floresceu nesse universo online, transformando-se em uma força complicada que o partido muitas vezes foi capaz de cultivar em benefício próprio. Em 2005, em meio a um impasse diplomático entre China e Japão, milhares de manifestantes chineses organizaram furiosas passeatas anti-nipônicas em Pequim, Xangai e outras cidades. Inicialmente, o governo aprovou a manifestação, ainda que os protestos fossem ilegais. Mas, quando as manifestações cresceram, a polícia suprimiu-as.

Neste ano, as controvérsias em torno das Olimpíadas colocaram o nacionalismo chinês no cenário mundial. Nos dias que se seguiram às violentas rebeliões tibetanas, a mídia estatal dedicou horas à cobertura dos ataques dos tibetanos contra os chineses de etnia han, bem como a documentários televisivos que elogiavam as políticas econômicas aplicadas no Tibete. Quando líderes ocidentais passaram a pedir à China que agisse com comedimento na supressão do levante, chineses nacionalistas correram a defender o partido na Internet.

A fúria patriótica intensificou-se em abril, após os protestos contra a China que perturbaram a cerimônia de passagem da tocha olímpica em Londres e Paris. As vozes que pediam moderação, ou que questionavam a responsabilidade do governo na crise do Tibete, foram sufocadas. Conforme ocorreu três anos antes durante os protestos anti-nipônicos, as autoridades inicialmente aprovaram tacitamente o fervor e até mesmo um boicote à rede francesa de supermercados Carrefour, mas depois reprimiram essas manifestações a fim de criar uma imagem mais harmônica antes dos Jogos Olímpicos.

Controlando o orgulho
Para o Partido Comunista, o nacionalismo foi sempre uma justificativa central para o seu reinado. Crianças nas escolas aprendem a história heróica do partido como o salvador da China em 1949, e como o agente que libertou o Tibete do feudalismo e do atraso econômico. Se os ocidentais muitas vezes vêem a China através do prisma da Revolução Cultural e da repressão ocorrida em 1989 na Praça da Paz Celestial, os chineses aprendem a respeito da Guerra do Ópio e dos avanços colonialistas feitos pelo Japão e o Ocidente sobre a China.

"Nacionalismo e patriotismo significam amar o seu país", afirma Zhang, o analista político. "O Partido Comunista foi tão inteligente porque vinculou nacionalismo ao amor ao partido. Eles afirmaram que o partido e o país são a mesma coisa".

Li Datong, ex-editor de uma revista estatal, que perdeu o emprego após desentender-se com as autoridades de propaganda, afirma que as autoridades que controlam a mídia de massa e a Internet procuram deixar pouco espaço para o acaso. Segundo ele, o exército de sensores do país infiltrou-se anonimamente no debate da Internet pagando a escritores de meio expediente a quantia de 5 maos, ou cerca de sete centavos de dólar, para dirigir a opinião pública e monitorar o tom do debate travado online.

"O trabalho deles é publicar artigos no Bulletin Board System para equilibrar a opinião pública", afirma Li, referindo ao sistema da Internet no qual muitos usuários interagem. "Os cibernautas os chamam de partido dos 5 maos. Se eles publicarem uma mensagem em um Bulletin Board System, recebem 5 maos".

Lu, o ciber-nacionalista, diz que os patriotas chineses fazem distinções entre país e partido. Durante a crise do Tibete ele usou o seu website para sublinhar as mensagens provocadoras que criticavam a mídia ocidental ou o separatismo tibetano como parte da onda de apoio nacionalista ao partido. Mas, nas últimas semanas, a Internet ficou cheia de mensagens iradas - muitas delas foram mais tarde censuradas - criticando o governo por um recente acordo de energia com o Japão.

Porém, quando se trata de Olimpíadas, o partido e a nação parecem inseparáveis.

"O cidadão chinês comum, ainda que não seja capaz de articular isso, sente que as Olimpíadas são uma oportunidade muito importante para a China exibir poder de Estado", diz Lu.

Zhang Jing e Huang Yuanxi contribuíram para esta matéria.